RECIFE: 'Covid caiu como uma bomba', diz mãe de jovem que morreu após parto e deixou seis filhos


"A Covid caiu como uma bomba. A gente não pensava que ela estava com essa doença. Eu estava no campo, trabalhando, quando ela teve uma hemorragia. Chamou a vizinha e foi para o hospital. Lá, tiraram os bebês na hora. Ela foi logo intubada e, depois, morreu".


A fala é da agricultora Maria José da Silva, mãe da dona de casa Maria Uilma da Silva, que morreu com Covid, aos 27 anos, depois de um parto prematuro em que deu à luz gêmeos com cinco meses de gestação.


A jovem esperava uma menina e um menino, mas somente a primeira sobreviveu. A mulher deixou, além da pequena Agatha, mais cinco filhos órfãos.


Maria Uilma era a única filha mulher da agricultora, que tem 53 anos e outros três filhos homens. As duas moravam juntas com os cinco filhos da jovem dona de casa em Amaraji, cidade da Zona da Mata de Pernambuco que fica a quase 100 quilômetros do Recife.

Maria Uilma precisou viajar 100 quilômetros para tentar salvar a própria vida e a dos gêmeos que esperava. Com hemorragia, no dia 30 de abril de 2020, ela foi levada a um hospital municipal. Devido à gravidade do caso, precisou ser transferida para o Hospital das Clínicas (HC), unidade gerida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na Zona Oeste do Recife.


De acordo com a mãe da jovem, Maria Uilma era saudável e não tinha nenhuma doença pré-existente. A expectativa da família era de que o parto corresse tão bem quanto os cinco outros anteriores. Mas a Covid interrompeu todos os planos. Dos três, mãe e filhos, voltou somente Ágatha Sofia, a única sobrevivente da doença.


"Depois do parto, ela foi logo intubada. Foi isolada na UTI e separada dos bebês. Não deixaram eu ir vê-la. Os meninos também estavam com Covid. O primeiro morreu logo. Ágatha teve que passar os primeiros 14 dias de vida em quarentena. Ela é alegre, sorridente, brincalhona, mas não é saudável", disse.


Davi Ruan, irmão da pequena Ágatha, chegou a ser socorrido para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, mas morreu no dia 14 de maio, com 14 dias de nascido. A mãe morreu seis dias antes, no dia 8 de maio, sem saber de nada que aconteceu desde que passou pelo parto.

"Ágatha tem uma alergia muito forte e, duas vezes por mês, tem que passar por consultas com cinco médicos, no Recife. Quem vai com ela é minha sobrinha, que mora no Cabo de Santo Agostinho [no Grande Recife], porque não tem como eu deixar os outros cinco para levar. Quem dera os médicos fossem aqui em Amaraji", declarou Maria José da Silva.


Na época em que Ágatha e Davi Ruan nasceram, e que Maria Uilma morreu, o estado passava pela primeira fase aguda da Covid-19. Acreditava-se ser o "pico" da epidemia no estado, com constantes recordes de internações, doentes e mortos.


O pequeno Davi Ruan, que morreu com a mesma doença da mãe, foi um dos primeiros bebês que sofreram a falta de leitos de UTI neonatal. Ele nasceu no dia 30 de abril de 2020 e somente no dia 11 de maio conseguiu tratamento adequado. A irmã, Ágatha, demorou ainda mais tempo para ser transferida.


Ágatha Sofia, última lembrança deixada por Maria Uilma, tem pouco mais de 1 ano. Os irmãos dela têm 3, 4, 6, 10 e 11 anos. Antes de morrer, a jovem pediu à mãe que, independente do que acontecesse, que ela não desse os filhos dela para outras pessoas criarem, nem mesmo para os respectivos pais.

"Quem cuida sou eu, e quem me ajuda é a mais velha, de 11 anos. Cada um é de um pai. Eles dão a pensão, mas de cuidar, mesmo, a responsabilidade é minha. Às vezes, tem comida. Às vezes, não. Muita gente de fora da cidade me ajuda, principalmente com comida, que é o mais importante, mas também me dão roupas", disse a avó das crianças.




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