Rosto sem máscara contra Covid: fim do uso pode ser gatilho para ansiedade e outros dilemas



Com o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras contra a Covid-19 em vários estados – em ambientes abertos, na maioria dos casos –, o consenso geral parece ser de alívio. Afinal, ao menos em algumas situações, não é mais obrigatório usar o item para interagir socialmente.


Mas a sensação não vale para todos: especialistas ouvidos pelo g1 apontaram que, nos últimos dois anos, a máscara cumpriu funções que vão além de proteger contra o coronavírus. Entre elas esteve o papel de agir como barreira para evitar o julgamento alheio sobre si mesmo e até mesmo para esconder as próprias emoções.


Alguns grupos, como as pessoas que têm transtornos de ansiedade, obsessivo-compulsivo (TOC) ou hipocondria., também podem ter dificuldades a mais para lidar com a liberação.


1 - Máscaras significaram mais do que apenas proteção


"O que a gente tem observado na clínica é que a máscara desempenha várias funções para cada um: alguns pacientes temendo tirar a máscara não apenas pelo medo da Covid. Cada um foi criando, para si, uma função para a máscara – para além, claro, da proteção contra o vírus", comenta Wilian D. Fender, psicanalista e doutorando em psicologia clínica na Universidade de São Paulo (USP).


Ele explica que "muitas pessoas acabaram desenvolvendo algumas disfunções importantíssimas em relação à máscara – como, por exemplo, esconder o rosto, ou seja, esconder as expressões".


Uma pesquisa publicada em novembro passado por cientistas da Universidade de Cardiff, no País de Gales, apontou que usar máscaras afeta a forma com que o cérebro é capaz de criar empatia com emoções alheias – principalmente as positivas, que dependem mais da parte inferior do rosto para serem expressas. (O medo, por exemplo, consegue ser expresso apenas com os olhos).


"Essa mímica facial – em que o cérebro recria e espelha a experiência emocional da outra pessoa – afeta a forma como temos empatia com os outros e interagimos socialmente", disse o autor principal da pesquisa, Ross Vanderwert, à BBC britânica.


Por que, então, alguns desejariam esconder as próprias expressões – e emoções?


"É muito curioso, porque, se a gente pensa que as expressões dizem muito da gente, acabam revelando bastante coisa, por que será que muita gente acabou colocando para si a máscara como uma proteção dessas expressões para os outros? A máscara foi criando também uma função de esconder as emoções, as expressões. E isso vem junto – as expressões como reveladoras das emoções", analisa Fender.

Uma segunda questão, também ligada à primeira, é a estética, aponta o psicanalista – de pessoas que dizem que os outros ficam "mais bonitos" de máscara.


"O que tem nisso de que 'as pessoas ficam mais bonitas de máscara'? Quando a gente diz alguma coisa do outro, está falando alguma coisa da gente também. Isso a psicanálise nos diz bastante: quando a gente fala de alguém, se coloca ali. E, nesse sentido, talvez muita gente esteja receosa de tirar a máscara por, talvez, até se sentir mais bonito, ou de não ter essa preocupação de que o outro possa julgar a aparência", avalia.


O psicólogo Yuri Busin, doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e especialista em terapia cognitivo-comportamental, lembra que as pessoas não são obrigadas a tirar a máscara ou corresponder a expectativas quanto à aparência.


"Na parte estética da situação, ela [a máscara] facilitou para muitas pessoas, e deixava muitas mais seguras sobre algumas coisas. Então, elas vão ter que se modelar novamente. Mas não necessariamente [significa] que ela tem que retirar a máscara e tem que atender o que ela tinha antigamente", afirma.


Segundo ele, cada pessoa precisa escolher como vai lidar, de agora em diante, com o fato de estar sem a máscara. "Essa é uma escolha dela – não necessariamente ela tem que atender à expectativa alheia. Mas, naturalmente, vai causar um pouquinho de angústia de qual é a atitude que eu devo tomar", afirma.


"Cada um foi usando a máscara a partir da sua história de vida – dos seus traumas, das suas defesas, das suas exigências, expectativas em relação ao outro e a si mesmo", completa Wilian Fender.


O psicanalista avalia que as máscaras desempenharam um importante papel nas relações sociais.


"Não sei se positivamente ou negativamente – arriscaria que negativamente, na medida em que a gente acaba se escondendo atrás da máscara, muitas vezes – tanto com as emoções quanto com a aparência", diz o psicanalista.


2 - Medo da Covid e transtornos de ansiedade


O psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental pelo Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da USP, relata que, em seu consultório, as pessoas têm manifestado medo em tirar a máscara, mesmo ao ar livre, por temerem o contágio pela Covid.


"As pessoas querem ter certeza absoluta, de 100%, de que elas não vão pegar a doença. E essa certeza realmente não existe. Mesmo com máscara, mesmo com distanciamento, o risco nunca vai ser zero de transmissão", pontua.



3 - No próprio tempo

Os três especialistas são unânimes em dizer que cada um terá o seu próprio tempo para lidar com não usar máscara – seja por motivos ligados ao medo do contágio ou por questões estéticas, por exemplo.


Por um lado, é importante não se forçar demais, indo além do próprio limite na exposição a situações sem o acessório. Por outro, é preciso não se acomodar e observar o grau de sofrimento que tirar a máscara traz a si próprio.


Eduardo Perin, psiquiatra, dá exemplos: é possível começar tirando a máscara na rua, longe de outras pessoas; depois, num ambiente com mais pessoas, só que aberto; depois, num restaurante, sentando do lado de fora.


"É exposição gradativa. Só tem um jeito de lidar com medos, que é o enfrentamento gradativo dentro dos limites da pessoa. Gradativo e contínuo. Não adianta fazer isso uma vez e parar. Tem que ir dando passos no sentido do enfrentamento gradativo, dentro dos limites.Não é uma boa ideia fazer isso por conta própria, porque ela pode acabar fazendo uma exposição muito drástica, por exemplo, muito abrupta, e depois acabar ficando apavorada e piorar o quadro. Então ela deve ter um acompanhamento médico e psicológico para fazer essa exposição", afirma.

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